Um dos filmes mais esperados do ano estreou hoje no Festival de Cannes. Porém, mesmo com astros hollywoodianos como Jake Gyllenhaal, Tilda Swinton e Paul Dano, assim como um diretor internacional, Bong Joon Ho, com credenciais de auteur, “Okja” é aguardado não pelo seu valor artístico, mas pelo seu distribuidor, Netflix, que deu carta branca à criação do sul-coreano.

Okja é um superporco, criado pela multinacional Mirando Corporation com a proposta de resolver a questão da fome em um mundo um pouco futurístico. A CEO da corporação, Lucy Mirando (Swinton) quer romper com a tradição de exploração capitalista de seu pai e de sua irmã e ser uma força para o bem. Por isso criou uma raça de superporcos que levará 10 anos para atingir a maturidade.

Um dos criadores escolhidos como guardião de um animal é o pai de Mija (An Seo Hyun), que mora entre montanhas na Coreia da Sul. Quando o deadline de 10 anos termina, a empresa pega o animal de volta, mas Mija, que cresceu junto do animal, fica determinada a trazê-lo de volta para casa. Assim, a menina se envolve numa trama que incorpora ainda um apresentador de filmes de natureza e uma organização de eco terroristas.

Joon Ho é conhecido por fazer filmes adultos. “Memories of Murder” (2003) e “Mother” (2009) são filmes policiais duros e brutais. Seu primeiro filme com Hollywood, “Snowpiercer” (2013), é uma ficção científica pós-apocalíptica com menções a canibalismo. Mesmo “O Hospedeiro” (2006), o filme que fez seu nome ficar conhecido mundo afora, que envolve um monstro gigante, tem momentos impróprios para menores de idade.

“Okja”, porém, parece ser a sua primeira tentativa em atingir um público irrestrito. No fundo, é uma aventura infanto-juvenil com pitadas de sarcasmo. A pequena Mija, cujo nome deve ser alterado para a versão brasileira, é o coração puro num mundo de adultos e de interesses ocultos, e, para ser crível, o filme tem de formar uma base emocional sólida da relação dela com Okja, o gigante que visualmente parece um híbrido de porco e hipopótamo. Joon Ho não economiza tempo no começo da história; como diretor, ele sabe aonde está a importância da história. É por isso que o excesso de discurso expositório dado por Swinton no comecinho não incomoda.

O que nos leva a comentar a performance de Swinton como Lucy Mirando. Se Mija é a pureza inocente do filme, Mirando é o poço bem-intencionado de cinismo que rouba todas as cenas, quiçá o filme inteiro. Ela tem as melhores falas, os melhores momentos, os melhores figurinos. Logo no começo, enquanto faz um discurso na fábrica da família, diz: “Eu sei que as paredes desta fábrica têm o sangue e a vida de vários bons trabalhadores, mas queremos deixar isso tudo para trás.” Ela, como símbolo do capitalismo, é a força que permeia o filme inteiro.

Jake Gyllenhaal, por exemplo, é o astro pop Dr. Johnny Wilcox, apresentador de TV contratado para ser “o rosto” da empresa Mirando. Quando a pequena Mija pede seu autógrafo, ele fica feliz que ainda é famoso em pelo menos um canto do mundo. Paulo Dano é Jay, líder de um grupo eco terrorista que encontra Mija e diz estar ao seu lado. Com relativamente pouco a fazer, seu papel é o que merecia algo mais.

Não há nada de errado em fazer um filme que possa ser visto pelo público infanto-juvenil, mas foi um tanto inesperado para quem acompanha os filmes de Joon Ho. Os adultos se divertirão com os personagens adultos e as crianças gostarão de Mija e Okja (com a vantagem de Okja ser um animal que não existe, e portanto não poderão ficar pedindo um superporco para os pais). Como num filme de criança, “Okja” não arrisca ou atreve. O final é um tanto conveniente, e, portanto, é duvidoso que algo além da excelente Swinton seja lembrado.

Pode ser que a própria Netflix tenha influenciado neste aspecto, afinal, a empresa busca sempre mais assinantes e mais minutos gastos em frente à televisão. Filmes que possam ser assistidos por mais pessoas geram mais retornos. E a própria inclusão deste filme, que não passará nos cinemas, na programação do Festival foi controversa. Após protestos de distribuidores franceses, uma nova regra foi criada para o festival: poderão participar apenas filmes que passarão em cinemas franceses. Mas só a partir do ano que vem.

Pode ter sido uma premonição, pois na primeira apresentação do filme, a cabine de imprensa, a imagem ficou fora da tela, num erro de projeção grotesco. Mais de 2 mil jornalistas do mundo todo uivaram, bateram palmas e assobiaram por dez minutos, até que o erro fosse notado e consertado. Enquanto todos dizem que o cinema tem de se acostumar com a Netflix, talvez a Netflix também tenha de se acostumar com o cinema.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

 

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