O corpo inteiro se transforma depois de uma cirurgia bariátrica. O procedimento vai muito além de diminuir o estômago e comer menos.

O estômago pela metade perde a capacidade de absorver nutrientes, de digerir bem os alimentos. Sem saber mais como lidar com açúcares e gorduras, ou com comida que não foi mastigada o suficiente ou foi ingerida rápido demais, o corpo não pensa duas vezes: põe tudo pra fora.

A cirurgia é importante e pode salvar vidas, mas é preciso tomar cuidado. E uma das áreas mais negligenciadas por quem faz a cirurgia bariátrica é a saúde bucal. Segundo uma pesquisa da Unicamp, os pacientes operados apresentam maior incidência de cáries, erosão dental, lesão nos tecidos moles e boca seca.

Como os pacientes têm dificuldade em beber água e ingerem poucos alimentos, a saliva fica mais pastosa. “A saliva serve para lubrificar a cavidade oral, ajuda na mastigação, na deglutição e no gosto das coisas”, explica o cirurgião dentista Paulo Moraes.

“Ela também oferece uma proteção contra as bactérias do meio externo. Na falta de saliva, abre-se uma brecha para que as bactérias e placas se proliferem”. Para resolver o problema, é necessário o acompanhamento odontológico (existe até um tipo de saliva artificial para casos mais complicados).

A falta de nutrientes também é um problema: na ausência de cálcio, por exemplo, o dente fica menos resistente e o esmalte pode ficar amarelado.

E se o paciente vomita com frequência, além de precisar procurar um nutricionista e o médico responsável pela cirurgia, o cuidado com os dentes deve ser redobrado. O vômito tem pH ácido, e, a longo prazo, vai corroendo o dente, camada por camada.

“O paciente precisa atentar para a higiene, mas não escovar os dentes de imediato. Estudos dizem que se se escova logo em seguida, o ácido e o atrito desgastam ainda mais. O ideal é fazer um bochecho com água”, ensina Paulo.

Por esses vários fatores, que ainda incluem a mastigação diferenciada que deve ser feita pós-cirurgia, a orientação é que se acrescente um dentista na equipe multidisciplinar que acompanhe os momentos antes e depois da cirurgia bariátrica.

Segundo a cirurgiã-dentista Beatriz Balduino Ferraz da Silva, responsável pela pesquisa da Unicamp, o acompanhamento antes da cirurgia também é imprescindível.

“Os pacientes diziam que tinham medo de sentar na cadeira e quebrá-la ou ainda passar por outros tipos de constrangimento pelo excesso de peso. Eles procuram o tratamento apenas em situações emergenciais, entre as quais quebra de dente ou dor”, esclareceu, em entrevista ao portal Hospital das Clínicas.

 

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