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A presença feminina no Oscar 2018: mudança de paradigma em Hollywood?

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Tim Boyle/Getty Images

Os movimentos #MeToo (Eu também) e “Time’s Up” (Acabou o tempo), contra o assédio sexual sofrido por mulheres, levantaram um debate urgentemente necessário sobre a igualdade de gênero na indústria do cinema, o que representou um golpe contra a fachada glamorosa de Hollywood.

Em 2018, pela primeira vez em 90 anos de premiação, uma mulher foi indicada ao Oscar na categoria de melhor fotografia: a americana Rachel Morrison, diretora de fotografia do drama Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi. A cerimônia de entrega dos prêmios ocorre neste domingo (4/3).

O filme da Netflix aborda a discriminação racial no sul dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. A diretora do longa, Dee Rees, é a primeira mulher negra a concorrer na categoria de melhor roteiro adaptado, ao lado do roteirista Virgil Williams.

Além disso, a americana Greta Gerwig tornou-se a quinta mulher na história da premiação a ser indicada como melhor diretora, por Lady Bird: É hora de voar, que, aliás, conta a história de amadurecimento de uma garota de personalidade forte em seu último ano de ensino médio.

Tais indicações podem passar a ideia de que, com os recentes debates sobre igualdade de gênero em Hollywood e sobre a pouca representação feminina em premiações de grande destaque, como o Oscar e o Globo de Ouro, algo de fato mudou na indústria cinematográfica.

No entanto, um olhar mais atento sobre a lista de indicados mostra como a situação ainda é preocupante. Enquanto a população dos Estados Unidos – país onde é produzida a maioria dos filmes do Oscar – é composta por 51% de mulheres, a participação feminina na premiação é de apenas 23%. Com exceção para as categorias de atuação, que sempre indicam 10 homens e 10 mulheres.

Ao todo, entre os 199 indicados neste ano, apenas 46 mulheres concorrem ao prêmio. E elas não estão nem presentes em todas as categorias: não há indicações femininas aos prêmios de melhores efeitos visuais, melhor edição de som e melhor trilha sonora original, por exemplo.

A pouca representação feminina é, no entanto, um problema que aflige a indústria cinematográfica como um todo, e acaba se refletindo no Oscar, segundo mostrou uma pesquisa recente do Centro de Estudos sobre Mulheres na Televisão e no Cinema, com base em San Diego.

A proporção entre homens e mulheres nos bastidores das 250 maiores produções cinematográficas dos últimos 20 anos pouco mudou: cerca de 80% das pessoas atrás das câmeras são homens, uma porcentagem que se manteve constante ao longo desse período, afirmou o estudo.

Há movimentos que já estão chamando a atenção para esse desequilíbrio, como as campanhas #MeToo, nas redes sociais, e “Time’s Up”, iniciado por mulheres da indústria de Hollywood – entre as signatárias estão Meryl Streep, Emma Stone, Natalie Portman, Reese Witherspoon e Cate Blanchett, que também apoiam financeiramente a iniciativa.

Na Alemanha, um grupo chamado Pro Quote Film faz campanha pela igualdade de gênero na frente e atrás das câmeras, a fim de acabar com o abuso de poder na indústria e os estereótipos nos filmes. A iniciativa argumenta que apenas metade das mulheres que estudam cinema acabam trabalhando de fato na indústria.

Ao analisar mil filmes produzidos entre 2011 e 2015, o grupo concluiu que, em mais de 90% dos casos, o som ficou nas mãos de homens, assim como 85% das funções de câmera.

Presença negra
Repensar a desigualdade racial e de gênero no cinema pode ser rentável não só para a sociedade, mas também para as bilheterias. A Universidade da Califórnia examinou os filmes produzidos nos EUA em 2016 e concluiu que as obras que tinham ao menos 30% de atores não brancos tiveram mais sucesso do que aquelas com um elenco etnicamente homogêneo.

O movimento #OscarsSoWhite (Oscars tão brancos) – hashtag que surgiu em protesto contra as indicações dominadas por brancos – teve seus primeiros resultados na premiação do Oscar em 2017, quando atores negros ganharam metade dos prêmios nas categorias de atuação, e Moonlight: Sob a luz do luar, longa sobre um afro-americano gay, foi eleito melhor filme.

Neste ano, apenas quatro dos 20 indicados nas categorias de melhor atuação são negros. Entre os candidatos a melhor diretor, Jordan Peele, de Corra!, se tornou o quinto negro da história do Oscar a concorrer na categoria.

Mas muito se deve também a uma mudança entre os 8.500 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que decidem os vencedores do Oscar, após intensos protestos contra a pouca representação feminina e negra. Grande parte dos 1.500 membros convidados a fazer parte da organização nos últimos dois anos é formada por mulheres e negros.

A possibilidade de Rachel Morrison se tornar, neste domingo, a primeira mulher a receber um dos troféus mais cobiçados pode ser também um resultado dessas mudanças. A própria diretora de fotografia aconselhou suas colegas a ter paciência, mas manter a persistência. “Assim, quando chegarmos ao próximo nível, veremos tantas mulheres nessa função quanto homens – e talvez um dia possamos parar de nos referir a elas como diretores de fotografia mulheres, mas apenas diretoras.”

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