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Jukebox Sentimental: The Band é som icônico que não pode ser esquecido

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A cena foi eletrizante. Parecia cinema americano, mas era novela da Globo. No horário mais nobre da televisão brasileira, Juliano Cazarré e Grazi Massafera desembestam numa fuga implacável com a polícia no encalço. Afinal, o casal levava no bagageiro uma enorme esmeralda roubada, no banco traseiro, o neto da vilã Sophia (Marieta Severo). Entre uma arrancada e outra, no rádio, a perseguição era embalada pelo clássico The Weight, da The Band.

Talvez a atual geração, fã de Jojo Todynho e Felipe Neto, não tenha se dado conta da preciosidade que rolava ali. Ou talvez tenham achado o som tão neandertal quanto aquele osso atirado ao léu por um primata em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”.

Uma daquelas canções fundamentais presente na mitologia folk-country-gospel norte-americana, The Weight é um road movie místico cheio de mistérios inspirada, segundo o autor, Robbie Robertson, nas viagens iconoclastas do cineasta espanhol Luís Buñuel. A referência direta seria os filmes Nazarín (1959) e Viridiana (1961).

Incluída de forma oportuna na trilha sonora do sucesso indie Easy Rider (1969), a faixa seria o maior sucesso de Music From Big Pink, álbum de estreia da The Band. A pérola do folk-rock abre uma seleção da Jukebox Sentimental de grandes registros de 1968 que entraram para a história da música.

 

O voo dos discípulos de Dylan
Formada por quatro canadenses e um filho de fazendeiro do Arkansas, o grupo se notabilizou como “a banda” de apoio de Bob Dylan. Os Hawks, tendo nesse antológico primeiro registro a chance de se desvencilhar da sombra do bardo folk, criaram um trabalho de peso que, passados 50 anos de seu lançamento, ainda cai como um tijolo sonoro em nossos ouvidos.

O título do disco faz referência a casa em que Robbie Robertson (guitarra, piano, vocais), Rick Danko (baixo, violino, trombone, vocais), Levon Helm (baterista, bandolim, guitarra, baixo, vocais), Garth Hudson (órgão, piano, clarinete, acordeão, sintetizador, saxofone) e Richard Manuel (piano, gaita, bateria, saxofone, órgão, vocais), se enfurnaram em Woodstock (NY), depois de Dylan sofrer um acidente de moto.

Marcado por sonoridade root cheia de imagens da cultura folk, o álbum destoava então da quente cena acid rock da época, com as guitarras psicodélicas de Hendrix, a bateira possante de Keith Moon (The Who) e os gritos estridentes de Janis Joplin. Funcionou.

As faixas são hipnotizantes e soberbas, três delas escritas a quatro mãos com Bob Dylan, que morava por perto e se sentia em casa quando estava com os cinco amigos de palco: a angustiante Tears Of Rage, a divertida This Wheel’s On Fire e a redentora I Shall Be Released.

The Band, Bob Dylan e convidados na “última valsa” dirigida por Martin Scorsese:

“Era como um bar. A gente ia todos os dias… Bob (Dylan) gostava das vibrações. Ele estava lá cinco ou seis dias da semana”, lembrou certa vez o guitarrista Robbie Robertson. “Não me lembro de tê-lo visto num estado de espírito tão relaxado”, emendou.

Outros clássicos do disco são a proto progressiva Chester Fever e a provocativa Caledonia Mission, que faz alusão a alguns problemas dos integrantes da banda com a lei. No cover Long Black Veil, ouvimos sobre os perigos do adultério à sombra de um amor verdadeiro.

Quando a banda anunciou o fim, em 1976, foi uma despedida apoteótica com direito a um registro reverenciador do cineasta Martin Scorsese – ainda em início da carreira. A lista de convidados continha a diva Joni Mitchell, Neil Young, Van Morrison, Eric Clapton e, claro, Bob Dylan. Dá para entender agora porque o grupo simplesmente era chamado “apenas” de A Banda?

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